5. GERAL 27.2.13

1. GENTE
2. RELIGIO  SEXO, ROUBO E CHANTAGEM
3. RELIGIO  O PAPA SOLDADO DE HITLER
4. RELIGIO  A LTIMA VEZ COMO PAPA
5. ESPORTE  A MORTE DA TORCIDA
6. CRIME  UM GOLPE BRILHANTE
7. SOCIEDADE  BOLA FORA FENOMENAL
8. SOCIEDADE  A GRAA DE TRABALHAR DE GRAA
9. FAMLIA  MEU AMADO EX-ENTEADO

1. GENTE
JULIANA LINHARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni

O ESTILO  O HOMEM
Jeans agarradinho,  camisa modernamente para fora, mocassins vermelhos e cabelo e barba descoloridos: poderia ser um fashionista, mas  o deputado TIRIRICA. Todos conhecem o figurino com o qual ele foi eleito, mas o deputado gosta mesmo  de grife. ''S de sapatos coloridos, so mais de 100. Este blazer e esta gravata so Armani, e sou viciado em cueca Calvin Klein", descreve. Hoje no meio do mandato, ele j se sente  vontade para criticar a mecnica da Cmara. "Dia desses, no meio de uma votao importante, um deputado pediu a palavra para reclamar que uma tomada de seu gabinete estava queimada. Achei muito louco."  Os seis filhos e a mulher de Tiririca aprovam as inovaes visuais, com uma exceo. "Eles dizem que, com este cabelo, eu pareo uma galinha. E minha mulher ameaou pedir separao."

A F QUE D FUNK
Quem ouve as letras explcitas de MC NALDO no imagina que por trs delas pulsa um corao evanglico, devoto da Assembleia de Deus. "Os pastores no implicam com minha msica. Eles sabem que falo de amor e que os jovens tm relaes mais quentes", diz Naldo. Portanto, um aviso: quando ele fala de amor de chocolate, est fazendo, por assim dizer, uma metfora. A f de Naldo tocou a companheira, ELLEN CARDOSO, outrora dedicada  dana do creu. "Ele pediu, e eu parei", diz a ex-Mulher Moranguinho. que aposentou o apelido e entrou para a igreja. O casal est em Los Angeles, negociando shows com rappers americanos. E o jeito evocativo de Chris Brown e Kim Kardashian? "Com ele, at j conversei. Dela, nunca ouvi falar", dispensa Naldo.

CORTEM A CABEA
Mergulhada na era da dinastia Tudor e nas intrigas da corte do rei Henrique VIII, com suas mulheres decapitadas, a escritora HILARY MANTEL caiu no mundo muito mais sanguinolento dos tabloides ingleses. Por suas prprias palavras: achou que poderia dissecar com rigor de intelectual, numa palestra sobre as mulheres da realeza histrica, a persona pblica de KATE, a mulher do prncipe William, incluindo o "sorriso plastificado" e o risco zero de "expresso de personalidade prpria". Falar assim de uma futura rainha consorte, e ainda por cima grvida (notaram a minscula barriguinha?), no poderia dar muito certo, mas o vale-tudo transformou Hilary em alvo de chacotas nada dignas, centradas em sua aparncia. Tolice. A prpria autora, de 60 anos, j escreveu sem nenhuma autopiedade sobre a grave endometriose que a levou a uma vida de dores insuportveis e peso fora de controle.

A ROSA ARRANHADA
Com cara de boazinha de conto de fadas, a atriz BIANCA BIN enfrenta com galhardia seu primeiro papel de vil, como Carolina na novela Guerra dos Sexos. J levou pancadas cnicas de boa parte do elenco, especialmente de Luana Piovani, sua grande antagonista. "Meo 1,61 metro. Sou uma an. Quando contracenamos, parece que estou falando com minha me. Fico olhando para cima", diz Bianca sobre a colega de 1,78. "Na cena em que brigamos, com ela sentada em cima de mim, tive de me proteger com as mos para no sair machucada. Na lista dos que j deram suas lambadas em Bianca esto Thalita Lippi, Eriberto Leo e Guilhermina Guinle. Mas ningum ver hematomas nas cndidas fotos da atriz para a revista VIP. 


2. RELIGIO  SEXO, ROUBO E CHANTAGEM
Essa  a trindade maligna que, descoberta por uma investigao secreta encomendada pelo papa, determinou a renncia de Bento XVI para salvar a Igreja.
MARIO SABINO, DE PARIS

     Em Roma, atribui-se a Bento XVI uma frase espirituosa sobre os conclaves: "Nas eleies para papa, o Esprito Santo no ajuda a escolher o melhor cardeal para ocupar o Trono de Pedro, mas aquele capaz de causar menos estragos". Pode-se dizer hoje que, depois do anncio da renncia, marcada para 28 de fevereiro, o papa e os seus colaboradores mais fiis trabalham espiritualmente em prol do Esprito Santo no prximo conclave. s vsperas da eleio do seu sucessor, que poder ser antecipada para o dia 11 de maro, naquela que dever ser a ltima deciso oficial do atual pontfice, a imprensa italiana publica, a conta-gotas, em especial o jornal La Repubblica, de Roma, reportagens com informaes calculadamente vazadas pela "banda s" do Vaticano, com o propsito de enfraquecer a sua "banda podre". Sim, a terminologia aplicvel a casos policiais  adequada, porque a Igreja Catlica, em matria de moral e bons costumes, parece ter retroagido aos tempos da famlia Brgia, na passagem do sculo XV para o XVI, que transformou a sede papal em um centro de devassido e roubalheira tal que viria a alimentar entrechos de peas teatrais, romances  e, em ltima instncia, abriria caminho para os cismas protestantes.
     A semana imediatamente posterior  divulgao da notcia da renncia comeou com moldura sombria: a presso de um vasto contingente de catlicos  americanos para que o cardeal Roger Mahony, removido do arcebispado de Los Angeles por ter acobertado 129 casos de pedofilia clerical, no participe do conclave. Diante do protesto, Mahony, que, um dia antes de partir para Roma, dever prestar depoimento em um dos processos no qual  ru, afirmou em seu blog que estava sendo "humilhado" e que participaria da eleio do papa porque estava em seu direito faz-lo. O Vaticano limitou-se a dizer que Mahony deveria comportar-se de acordo com sua conscincia  como se ele tivesse uma. Por ter encoberto tambm abusos de padres contra crianas, o cardeal Sen Brady, primaz da Irlanda, est no ndex de catlicos do pas que no se conformam com a sua presena no conclave. Entre os europeus, outro a enfrentar protestos  o cardeal belga Godfried Danneells, que protegeu abusadores. Para completar a moldura, o escndalo da pedofilia respingou na batina do cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York e presidente da Conferncia Episcopal Americana. Na ltima quarta-feira, ele foi interrogado pelo advogado das setenta vtimas de um padre de sua ex-arquidiocese, Milwaukee. O representante legal das famlias queria saber como e quando Dolan soube das perverses do subordinado. O detalhe que acrescenta mais sordidez ao episdio: as crianas eram surdas-mudas. No interrogatrio, o cardeal foi questionado sobre ter dado 20.000 dlares a dois sacerdotes pedfilos, para que abandonassem a Igreja antes de ser processados. Um santo.
     A essa moldura, encaixou-se, no fim da semana, um quadro de horror que, pelo jeito, est longe de receber a pincelada derradeira. J est claro que Bento XVI, com a renncia, tenta dar um tratamento de choque a uma Igreja que, apesar da poltica papal de tolerncia zero nos ltimos oito anos, teima em ser leniente em relao ao clero abusador de menores e conta com um aparato burocrtico, a Cria Romana, cuja corrupo exsudou no Instituto para Obras Religiosas (IOR), o banco central do Vaticano, sob investigao da Justia italiana por suspeita de reciclagem de dinheiro e outras gatunagens. Desde a quinta-feira passada, contudo, novas revelaes sobre os escndalos que esto na origem da sada de Bento XVI vm deixando boquiabertos vaticanistas veteranos.
     Soube-se que, no ano passado, depois de vir  tona que o mordomo Paolo Gabriele havia roubado documentos pontifcios, no escndalo apelidado de Vatileaks, o papa decidiu empreender uma investigao paralela sobre os desmandos na sede da Igreja e adjacncias. Para tanto, incumbiu trs cardeais fidelssimos a ele, todos octogenrios, de fazer um relatrio que, completado em dezembro, foi determinante para a sua deciso de renunciar. No documento, os cardeais Julin Herranz Casado, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi concluem que altos integrantes da Cria eram chantageados por homossexuais beneficiados com dinheiro da Igreja e a nomeao para cargos de destaque na estrutura do Vaticano ou prximos dela. Para chegarem a essa constatao, eles escrutinaram documentos e recolheram depoimentos de dezenas de padres e leigos, na Itlia e fora dela, primeiro por meio de um questionrio nico enviado a todos, em seguida por intermdio de entrevistas individuais devidamente cruzadas. Os prelados que aparecem no relatrio foram protagonistas de orgias em uma villa nos arredores de Roma, numa sauna da capital italiana e em quartos dentro do Vaticano. Como descreve o La Repubblica, pela primeira vez a palavra "homossexualidade" foi lida em voz alta no apartamento do papa. Tambm pela primeira vez foi pronunciada a palavra "chantagem", em sua verso em latim (Impropriam influentiam). No que diz respeito ao IOR, os trs cardeais apontam que, de fato, transaes ilcitas e atpicas ocorreram com o apangio do cardeal Tarcsio Bertone, secretrio de Estado e integrante do conselho de administrao do banco. Ele  um dos "peixes ruins na rede de Pedro", para usar uma metfora do papa, s agora compreensvel. Traiu a confiana de Bento XVI por bem mais do que trinta moedas. Numa reunio com apaniguados seus, Bertone concordou em entregar  Justia italiana quatro casos menores de crime financeiro, "para dar a impresso de colaborao". Entre eles, o de dom Evaldo Biasini, de Perugia, a quem chamavam de "Dom Caixa Eletrnico", por causa de seus trambiques com dinheiro vivo. A estratgia de jogar os midos aos lees e esconder os grados no deu certo, graas ao Vatileaks. No foi somente por bondade que o papa perdoou o mordomo Paolo Gabriele. O mandante de seu roubo queria desmontar a mfia de Bertone  e conseguiu.
     Os dois volumes do relatrio dos cardeais Casado, Tomko e De Giorgi tm quase 300 pginas cada um e esto no cofre do apartamento pontifcio. Bento XVI estava resolvido a entreg-los ao prximo papa, mas passou a admitir a ideia de divulg-los antes do conclave. A inteno  neutralizar de uma vez por todas a influncia de Bertone na eleio secreta que ocorrer na Capela Sistina. O cardeal se movimenta para fazer um "papa confivel" e continuar secretrio de Estado. Nessa posio, seria mais fcil escamotear as suas lambanas. As evidncias contra ele, contudo, se avolumam, e mesmo aliados de outrora, como o cardeal Angelo Bagnasco, pulam fora dessa barca de Caronte. Bagnasco usa de entreveres que teve com Bertone anos atrs, como quando foi advertido para no ser interlocutor do governo da Itlia na condio de presidente da Conferncia Episcopal Italiana, papel que estaria reservado ao secretrio de Estado do Vaticano, para aproximar-se da "banda s" e at viabilizar sua candidatura a papa. "Quando recebeu a carta de advertncia, publicada na imprensa, Bagnasco ficou enraivecido de verdade", disse um dignitrio romano a VEJA. O oportunismo, assim como a vingana,  um prato que se serve frio nos momentos mais quentes.
     O nome in pectore de Bento XVI para suceder-lhe  o do cardeal Angelo Scola, de 71 anos, arcebispo de Milo. No  velho, mas talvez no seja novo o suficiente para se lanar contra os peixes podres. A ver. No raro, foras enormes brotam de fraquezas aparentes, como exemplifica Joo XXIII, o papa ancio que tirou a poeira do Trono de Pedro. O filsofo francs Voltaire, anticlerical, escreveu que "o papa  um dolo a quem se atam as mos e se beijam os ps". Ao renunciar, Bento XVI livrou as prprias mos para purificar a Igreja que tanto ama. Que o conclave lhe faa jus e eleja no o menos capaz de infligir danos, e sim o melhor nome para uma hora to difcil.

Nestes cinquenta anos, aprendemos que o pecado original existe, e se traduz sempre em pecados pessoais que podem se tornar estruturas pecaminosas. Vimos que, no campo do Senhor, h sempre ciznia. Que, na rede de Pedro, acham peixes ruins. - BENTO XVI, em 11 de outubro do ano passado, no cinquentenrio da abertura do Conclio Vaticano II. Agora se sabe a quais "peixes ruins" o papa se referia.


3. RELIGIO  O PAPA SOLDADO DE HITLER
Na juventude, Bento XVI viu-se obrigado a servir nas fileiras nazistas. Teria ele matado algum e, assim, contrariado um dos dez mandamentos?
MARIO SABINO, DE PARIS

     Um estava do lado dos invadidos; o outro, dos invasores, ainda que por fatalidade. O polons Joo Paulo II enfrentou dois totalitarismos em seu pas natal  o nazismo e o comunismo. Sob a ocupao do anticristo Hitler, ele decidiu seguir o caminho do sacerdcio. Durante a dominao sovitica, tambm aterradora, o cardeal Karol Wojtyla foi uma voz potente em defesa dos oprimidos. Eleito papa, em 1978, teve papel decisivo na derrubada do fantoche Jaruzelski, e continuaria a ser protagonista nas quedas sucessivas que levariam  derrocada da Cortina de Ferro. Seu sucessor, o alemo Bento XVI teve a sorte de estar do lado certo do Muro, quando uma parte da Alemanha passou  esfera sovitica. Mas, na juventude, Joseph Ratzinger se viu obrigado a envergar o uniforme com a sustica. No, o papa nunca foi nazista, nem jamais escondeu a contingncia. Falou abertamente sobre ela, ainda cardeal, na autobiografia A Minha Vida, e decerto mais detalhes sobre esse perodo de sua trajetria devero emergir nas biografias que viro a ser escritas a respeito do homem que renunciou ao Trono de Pedro para salvar a Igreja.
     O bvaro Ratzinger tinha 16 anos quando, juntamente com colegas de internato, foi convocado para servir na bateria de artilharia antiarea que tentava proteger Munique dos bombardeios ingleses e americanos. Escreveu o futuro papa: "O primeiro local para o qual fomos destacados foi Ludwigsfeld, ao norte da cidade, onde ficamos encarregados de defender uma fbrica da BMW, na qual eram fabricados motores para avies. Seguiram-se Unterfhring, a nordeste de Munique, e, por um breve tempo, Innsbruck, cuja estao havia sido destruda e onde parecia necessrio reforar as defesas". Depois, Ratzinger foi transferido para a localidade de Gilching, como telefonista de um quartel. Nas muitas horas vagas, ele e outros catlicos organizavam, clandestinamente, grupos de estudo de religio.
     Em 1944, mesmo tendo passado quase dois anos no Exrcito nazista, ele foi obrigado a prestar o servio militar numa Alemanha j irremediavelmente fadada  derrota nos campos de batalha. Transportaram-no para a fronteira da ustria com a Hungria e a ento Checoslovquia. Lembra Ratzinger: "Foram semanas opressivas. Os nossos superiores eram, na maioria, provenientes da chamada Legio Austraca. Tratava-se, portanto, de nazistas de primeira hora, que haviam sido presos sob o governo do chanceler Dollfuss, pessoas fanaticamente ideologizadas, que nos tiranizavam com violncia. Uma noite, fomos tirados da cama e reunidos, ainda sonolentos, em uniforme de exerccio. Um oficial da SS nos chamou um por um fora da fila e procurou nos convencer ao alistamento 'voluntrio', aproveitando-se do nosso cansao e do fato de estarmos expostos ao grupo reunido. Muitos companheiros, embora fossem timas pessoas, viram-se alistados desse modo naquela corporao criminosa".
     O conscrito Ratzinger conseguiu escapar porque disse que tinha a inteno de se tornar padre da Igreja Catlica. O SS o cobriu de palavras de escrnio e ele foi afastado praticamente a pontaps. Com o Exrcito alemo em frangalhos, Ratzinger voltou para casa, em Traunstein. At o fim da guerra, receou ser enforcado por um esquadro SS, como desertor. Terminado o conflito, apesar de no usar mais uniforme, foi preso pelos americanos. Marchou durante trs dias at o campo onde seria confinado, com outros 50.000 alemes. Foi liberado meses mais tarde. "Cheguei  minha cidade ainda antes do pr do sol. A Jerusalm celeste naquele momento no poderia parecer mais bela", escreveu.
     Bento XVI teve a sorte de no ir para o front e, assim, no experimentou a sensao, descrita por vrios que nele estiveram, de matar um semelhante olhando-o nos olhos, em combates corpo a corpo ou quase. Mas teria o futuro papa derrubado, em sua bateria antiarea, pelo menos um avio inimigo e, assim, exterminado outro ser humano? Essa  uma pergunta a que talvez nem ele prprio saiba responder. Se o fez, contrariou um dos dez mandamentos de Deus, mesmo que a contragosto. Ser informado e cobrado por isso, quando chegar a sua hora e estiver, como acredita, na frente de seu Senhor? Ser perdoado?
     Ele nunca se indagou sobre isso em pblico.  de perguntar se o faz enquanto reza ou medita. Um papa que foi soldado. Um papa que foi soldado no lado errado. Um papa que usou a sustica. Teria essa experincia to contraditria moldado a tmpera de um conservador que, em lance inaudito, poder causar uma revoluo na Igreja? Uma revoluo moral que resulte em mudanas doutrinrias na contramo de tudo o que Ratzinger sempre defendeu? Imperscrutvel  o destino que o Deus catlico reservar ao alemo de fala macia e afeito a discusses filosficas. S o que sabemos  que, em fevereiro de 2013, ele  uma arma poderosa contra os pecados da igreja. "No precisa o brao de Deus de nossos punhais para seus castigos, nem de nossas mos para a sua vingana." A frase  do poeta espanhol Francisco de Quevedo.


4. RELIGIO  A LTIMA VEZ COMO PAPA
Ser em Gastel Gandolfo, para onde seguir pouco antes de o Vaticano declarar a sede vacante, que Bento XVI aparecer em pblico pela derradeira vez. Depois, a pequena cidade ter como hspede um simples Joseph Ratzinger.

     Se nenhum imprevisto ocorrer neste momento to surpreendente por que passa a Igreja, ao crepsculo do prximo dia 28, ainda na condio de sumo pontfice, Joseph Ratzinger ser levado de helicptero para a cidade de Castel Gandolfo, onde fica o palcio de vero dos papas. O horrio da chegada  5h30 da tarde. s 8 em ponto, ser declarada a sede vacante no Vaticano. Assim, Bento XVI deixar de ser o Sucessor do Prncipe dos Apstolos (So Pedro) no em Roma, mas na regio montanhosa de Castelli Romani, que exibe dois belos lagos e da qual Castel Gandolfo faz parte, ao lado de Grottaferrata e Frascati, entre outras localidades  todas destino de fim de semana de romanos esbaforidos durante a estao mais quente do ano, por causa do clima mais ameno e do timo queijo pecorino, servido com favas e acompanhado de vinho branco. Poucos minutos depois do pouso, Bento XVI dever aparecer na sacada principal do Palcio Apostlico, a fim de saudar a multido espremida na Praa da Liberdade, bem em frente. Como j estar escuro, a iluminao da cidade ganhar o reforo de tochas carregadas pelos fiis. Ser, de fato. a ltima apario pblica do papa Bento XVI. Depois disso, ele se recolher ao Palcio Apostlico e de l s sair daqui a dois meses, quando a reforma do mosteiro Mater Ecclesiae, sua morada definitiva, no centro do Vaticano, for concluda. A penso mensal do ex-pontfice dever ser de 2500 euros, no mnimo, a 5000 euros, no mximo.
     Uma semana antes do grande acontecimento, era difcil caminhar com tranquilidade pelo centro de Castel Gandolfo, onde grupos de turistas se apinhavam para fazer uma foto da fachada do Palcio Apostlico. Esperava-se muito para pedir um cappuccino nos bares, assim como para comprar um suvenir.
Prev-se que, no dia 28, cerca de 20.000 pessoas, um pouco mais que o dobro do total de habitantes da cidade, devero dar adeus ao papa renunciante. Para a segurana, foram escalados 100 policiais das vizinhanas  o contingente normal no passa de uma dezena. No h mais vagas nos hotis de Castel Gandolfo e arredores. "Esta  uma situao jamais vista em uma visita de um papa a esta cidade", diz a prefeita Milva Monachesi.
     Cercado pelos muros palacianos, Ratzinger passar os dias praticamente sozinho. O nico interlocutor ser, no mais das vezes, seu secretrio pessoal, o arcebispo alemo Georg Gnswein. O ex-papa dedicar seu tempo a oraes, caminhar durante a manh pelos jardins internos, compostos de ciprestes e pinheiros, escrever e ler. O abastecimento de jornais do palcio ser mantido pela banca do milans Paolo Grosso, h vinte anos em Castel Gandolfo. O papa gosta de ler os dirios Corriere dela Sera, La Stampa e o catlico Avvenire. Para a Guarda Sua, Paolo reservou as revistas com os assuntos preteridos dos soldados  armas, carros e cincia , alm de DVDs de rock italiano e msica clssica. A maioria dos alimentos que entram no palcio  proveniente de Roma. Uma das excees bvias  o pecorino tpico de Castelli Romani. O queijo que delicia Ratzinger  fornecido pela famlia Juliis, que o fabrica h cinquenta anos. O leite e o mel so produzidos no prprio palcio.
     O Palcio Apostlico foi erguido no sculo XIII, pela famlia Gandolfi, de Gnova, como um pequeno castelo. S se transformou em propriedade papal em 1596. Naquele ano, os ento donos, a famlia Savelli, o entregaram a Clemente VIII (1592-1605), como pagamento de uma dvida. No sculo XVII, Urbano VIII (1623-1644) o ampliou e embelezou, tornando-se o primeiro a l instalar-se no vero.  Desde ento, quinze dos trinta papas fizeram o mesmo. Pio XI (1922-1939) chegou a permanecer por seis meses em Castel Gandolfo. Em 1944, o palcio serviu de abrigo a 10.000 refugiados de uma Roma castigada pelos bombardeios aliados. Ao longo dos sculos, o palcio passou por cerca de dez grandes reformas. Hoje, a residncia papal  distribuda em dois andares. Alm do clima mais ameno em julho e agosto, quando Roma ferve a 40 graus, o lugar  ideal para a contemplao em qualquer poca do ano. ''Aqui, eu tenho tudo: a montanha, o lago e vejo at o mar", disse Bento XVI em 2011.  o que basta agora para Joseph Ratzinger.


5. ESPORTE  A MORTE DA TORCIDA
A tragdia na Bolvia precisa servir de alerta: s punies duras, que atinjam tambm os clubes, vo alterar a triste realidade da violncia nos estdios.
ALEXANDRE SALVADOR E BELA MEGALE

     A irresponsvel mistura de paixo e violncia, que alguns insensatos dizem dar graa ao futebol, fez uma nova vtima. Um menino boliviano de apenas 14 anos, Kevin Espada, que fora ao estdio com um primo, morreu aps ser atingido no rosto por um sinalizador martimo lanado por um dos cerca de 500 integrantes da torcida do Corinthians que estavam na cidade de Oruro para ver a estreia na Copa Libertadores do atual campeo do torneio. A partida contra o San Jos terminou empatada em 1 a 1, mas a discusso depois do jogo nada tinha a ver com o desempenho de jogadores.
     O crime manchara o esporte. H, agora, dois caminhos  o tradicional, associado  impunidade,  inaceitvel, e indica que uma vez mais a morte se transformar em mera estatstica. O outro, o mais adequado, pede justia e a transformao do episdio em lio. A Confederao Sul-Americana de Futebol (Conmebol) at reagiu com rapidez e dureza surpreendentes. Baniu a torcida do Corinthians de todos os jogos do clube na Libertadores pelos prximos sessenta dias, at que saia um veredicto definitivo sobre a tragdia de Oruro. No h exagero nenhum, e, se existe algum reparo a fazer,  com relao  falta de rigor ainda maior na deciso. O exemplo europeu deixa claro que as punies s tm efeito quando atrelam o comportamento da torcida ao destino de seu clube de corao. O caso mais conhecido  a tragdia de Heysel, na Blgica, em 1985, quando um confronto entre torcedores do Liverpool, da Inglaterra, e da Juventus, da Itlia, terminou com um placar de 39 mortos e centenas de feridos. Depois que uma investigao comprovou a culpa dos ingleses, a Uefa, a federao europeia de futebol, suspendeu todos os clubes da Inglaterra  no s o Liverpool  de suas competies durante cinco anos. Hoje, quase trs dcadas depois do massacre de Heysel, o futebol ingls  referncia mundial em como lidar com a violncia de torcidas. Os malfadados hooligans viraram prias.
     No Brasil, contudo, dirigentes e torcedores enfrentam o tema da violncia nos estdios com exagerada complacncia. Uma das poucas vozes sensatas foi a do lateral esquerdo corintiano Fbio Santos, que concordou com a possibilidade de o time ser expulso da competio: "Se for para tirar o Corinthians da Libertadores, e soubermos que no haver mais mortes, sou a favor". Os cartolas de seu clube pensam diferente.  Eles querem derrubar a deciso da Conmebol e ameaam sair do torneio se a equipe paulista for obrigada em definitivo a jogar sem torcida  um blefe que no resiste a uma anlise dos contratos de patrocnio e televiso. Pior, orientaram os torcedores que j compraram ingressos a esperar at quarta-feira desta semana, dia da prxima partida, contra o Milionrios da Colmbia, no Pacaembu, em vez de irem atrs logo da restituio do valor pago. No  toa, os torcedores j se mobilizavam para uma insana viglia em torno do estdio paulistano. E d-se a construo de uma possvel nova tragdia.
     Ao alimentarem a existncia das torcidas organizadas, muitas vezes cedendo a presses desses grupos, facilitando para eles ingressos e viagens, os clubes (quase todos) pem em risco a integridade de seus prprios jogadores. Na Bolvia, os atletas corintianos ficaram trancados no vestirio, enquanto uma turba gritava "assassinos" do lado de fora. Na delegacia onde estavam presos os doze torcedores suspeitos do disparo fatal, bolivianos protestavam. Para evitar maus-tratos ou algo pior, funcionrios do Itamaraty foram acionados. 
     O que fazer agora, alm da punio?  fundamental o rigor com bandos organizados que tratam a lei com descaso. Com os corintianos detidos, a polcia apreendeu outros nove sinalizadores iguais ao que matou o jovem, o que evidencia a falha de fiscalizao na entrada dos estdios  na Bolvia, mas tambm no Brasil , j que esses equipamentos so proibidos. Se houvesse um sistema srio de monitoramento de marginais disfarados de torcedores, Kevin ainda estaria vivo.

O CRIME DE ORURO
Como foi o episdio que provocou a morte de um jovem de 14 anos na Bolvia
 Na comemorao do gol do Corinthians, aos 5 minutos do primeiro tempo, um torcedor do time brasileiro atirou um sinalizador
 O artefato percorreu 40 metros e atingiu o boliviano Kevin Douglas Beltrn Espada, torcedor do San Jos
 O projtil perfurou o olho direito do jovem, provocando hemorragia interna e perda de massa enceflica; ele morreu logo depois de receber os primeiros socorros

O ARTEFATO FATAL
O sinalizador lanado pela torcida corintiana  de uso exclusivo em emergncias martimas. Quando acionado, libera um projtil plstico de 23 centmetros de comprimento e 2 de dimetro.
Velocidade mdia do projtil: 360 quilmetros por hora


6. CRIME  UM GOLPE BRILHANTE
O roubo de uma carga de diamantes no Aeroporto de Bruxelas, possivelmente o maior da histria, prejudica o domnio da Blgica no comrcio mundial de gemas.
TATIANA GIANINI

     Formado por carbono puro, o diamante  a mais dura entre as pedras preciosas.  tambm a mais rara. Cem toneladas de rocha precisam ser remexidas para que se consiga um diamante de 199 miligramas, o peso de um comprimido. A demanda cresce 135% mais que a produo, o que pressiona o preo para cima. O lado menos brilhante desse mercado  a dificuldade em garantir que os diamantes no tenham sido roubados ou usados para financiar guerras civis na frica. Apesar das iniciativas para prevenir o comrcio clandestino, no h como impedir que um cliente interessado em colares, anis ou brincos em uma joalharia no Brasil ou em outro pas acabe comprando, sem saber, uma pea feita com um diamante que passou pelas mos de criminosos. Nas ltimas duas dcadas, quase meio bilho de dlares em diamantes foi surrupiado em oito grandes assaltos. O ltimo ocorreu na semana passada.
     Na segunda-feira 18, oito ladroes mascarados disfarados de policiais invadiram a pista do Aeroporto de Bruxelas, na Blgica, em dois veculos que imitavam viaturas de polcia. Armados com metralhadoras, aproximaram-se de um avio que se preparava para zarpar para Zurique, na Sua. Renderam os funcionrios do carroforte que tinha acabado de carregar a aeronave com 120 pacotes de pedras preciosas e fugiram sem percalos. Oficialmente, a carga continha diamantes brutos e lapidados de diversos donos, no valor de 50 milhes de dlares. O funcionrio de uma companhia de seguros para diamantes, porm, disse a VEJA que a maior parte do carregamento consistia em joias prontas destinadas a uma feira marcada para maro, em Hong Kong. Segundo um canal de TV belga, o prejuzo real do roubo pode chegar a 460 milhes de dlares. Se for verdade,  o maior roubo de pedras preciosas da histria.
     Em tese, os bandidos deveriam ter dificuldade para revender as gemas. Desde 2003, governos, empresas e organizaes no governamentais estabeleceram o Processo Kimberley, com amparo da ONU. Por meio desse pacto, uma pedra recebe um certificado de origem toda vez que sai de uma mina. Em oitenta pases, as pedras s podem ser compradas se tiverem esse documento. Mas existem razes para desconfiar de sua eficincia. Um crime to bem planejado e executado dificilmente seria levado adiante sem a possibilidade de recompensa. Quatro especialistas consultados por VEJA afirmaram que h, sim, como colocar esses diamantes no mercado. Nos principais centros de venda dessa pedra, Anturpia, na Blgica, Dubai, nos Emirados rabes, e Tel-Aviv, em Israel, um diamante pode ter at cinco donos em um nico dia. O primeiro comprador pode suspeitar da origem ilcita, mas os outros no. Se houver alguma dificuldade, tambm ser possvel comercializ-lo em pases que no aderiram ao certificado Kimberley, como o Paraguai.  possvel ainda misturar as pedras brutas a outras legais e vend-las a compradores legtimos sem que desconfiem da fraude. Por fim, pode-se comprar um certificado. "H sempre algum disposto a emitir um documento falso em troca de propina", diz Norbert Streep, diretor da empresa Diamond Centers International, com sede em Anturpia.
     Apesar do alto valor de mercado, a carga roubada na semana passada representa apenas 0,09% do que passa pelo Aeroporto de Bruxelas em um ano. O crime, porm,  um duro golpe no domnio da Anturpia no mercado de gemas. Desde os anos 60, a cidade sofre a concorrncia da China e da ndia, pases onde o custo da lapidao  a metade do da Europa. Com isso, o nmero de lapidadores belgas caiu de 30.000 para 1000. A Anturpia manteve-se principalmente como um centro de comercializao. Oito em cada dez, pedras brutas do mundo so negociadas por uma das 1800 empresas e quatro bolsas de diamantes da cidade. O risco de assalto afastar vendedores e compradores. Em 2000, j havia ocorrido um roubo no Aeroporto de Bruxelas. Trs anos depois, uma quadrilha italiana invadiu o cofre do Centro de Diamantes da Anturpia e levou 100 milhes de dlares em gemas lapidadas, joias e dinheiro. A tendncia  que a cidade belga perca espao para Dubai, Londres e Tel-Aviv. S na cidade-estado dos Emirados rabes, o volume de brilhantes comercializados mais do que dobrou nos ltimos dois anos. "Os diamantes precisam ser protegidos 100% do tempo, e no 99,99%", diz o americano Scott Andrew Selby, um dos autores do livro Um Roubo Brilhante, que conta a histria do furto de 2003. A falha de segurana em 0,01% dos casos basta para fazer a festa dos ladres. 
COM TAMARA FISCH


7. SOCIEDADE  BOLA FORA FENOMENAL
Ronaldo Fenmeno se enreda em um processo que envolve acusaes de calote e falsificao de assinatura.

     Desde que abandonou o futebol, em 2011, Ronaldo Nazrio de Lima, o Fenmeno, conseguiu transpor o sucesso nos gramados para o mundo empresarial. Tornou-se scio de academias de ginstica, empreendimentos imobilirios e de uma agncia que negocia patrocnio para estrelas como o lutador Anderson Silva, o artilheiro Neymar e o sertanejo Luan Santana. O prprio Fenmeno figura no rol das celebridades mais requisitadas e bem pagas do mercado publicitrio. Nos ltimos meses, no entanto, o ex-craque se enredou em um processo judicial que arranha sua bem consolidada reputao. O enrosco envolve acusaes de calote e at falsificao de assinatura. Numa ao que corre desde 2010 na Justia do Rio de Janeiro  a cujos detalhes VEJA teve acesso , a empresa RDNL, de Ronaldo,  acusada de construir uma praa de alimentao em um terreno alugado em Jacarepagu, na Zona Oeste carioca, sem a anuncia das autoridades nem do dono da propriedade, o empresrio Paulo Bustamante. Punido pela obra clandestina, Bustamante agora exige do Fenmeno uma indenizao que pode chegar a 5 milhes de reais. Ronaldo j ofereceu 2 milhes para liquidar a pendenga. Nada feito. Conforme o tempo passa, a temperatura sobe. No fim de 2012 vetou qualquer espcie de construo no terreno de 650 metros quadrados, que tampouco pode voltar a ser alugado. "Por causa da malandragem desse senhor, de uma hora para outra meu patrimnio se depreciou", diz o proprietrio, que anexou ao processo trs cheques sem fundos emitidos pela RDNL ainda antes de a briga comear. Assim que alugou o terreno, em 2002, Ronaldo demoliu o prdio de dois andares que havia ali e colocou no lugar a sua praa de alimentao. Ao ser processado, parou de pagar o aluguel, mas acabou sendo obrigado a faz-lo por ordem judicial. No correr da disputa, o ex-craque chegou a apresentar um documento em que pede autorizao para pr abaixo o velho prdio. Mas a dois detalhes chamam ateno: 1) ele j havia derrubado tudo quatro anos antes; e 2) o tal documento traz a assinatura do proprietrio, fazendo crer que ele tinha cincia do caso  mas  falsa.
     Ronaldo tentou adiar o problema evitando ser citado no processo. O oficial de Justia levou quatro meses para conseguir ficar frente a frente com o ento craque do Corinthians, no vestirio do Engenho, depois de um jogo contra o Flamengo. No  a primeira vez que o pentacampeo d canseira  Justia. Dono de uma ilha paradisaca em Angra dos Reis, ele deve  Unio 466.000 reais de laudmio, um tributo federal. At agora, no pagou um centavo. E o funcionrio da vara de execues sofre para entregar a notificao desde agosto do ano passado. Procurado por VEJA, o Fenmeno preferiu ficar calado. 
THIAGO PRADO


8. SOCIEDADE  A GRAA DE TRABALHAR DE GRAA
O volume de candidatos a uma vaga de voluntrio em um dos megaeventos com sede no Brasil indica que pode vir a se disseminar aqui um hbito que est no DNA de outros pases: doar o tempo em prol do bem comum.
HELENA BORGES E NATHLLIA BUTTI

     Nas ltimas semanas, mais de 250.000 brasileiros passaram boa pane do tempo na frente do computador, dormindo pouco e digitando muito. Trata-se do pontap inicial no gigantesco processo de seleo em que meio milho de pessoas vo disputar 200.000 cobiadssimos postos de trabalho ao longo dos prximos trs anos. Tudo isso para no receber um tosto. O que atrai essa gente toda  a chance de pendurar um crach de voluntrio de um (dois, trs) dos megaeventos internacionais com sede no Brasil. O volume de candidatos nas duas selees prestes a ser encenadas  a da Copa das Confederaes, em junho, e a da Jornada Mundial da Juventude, em julho   indcio de que pode vir a se disseminar no Brasil um hbito que est no DNA da populao de muitos outros pases: o de doar seus prstimos onde quer que se faam necessrios.  verdade que a turma atual, em boa parte nefita no ramo, deseja mais do que tudo respirar o mesmo ar de seu dolo e ingressar numa tribo globalizada que coleciona tantos broches quantos carimbos no passaporte. Mas na natureza at do trabalho voluntrio mais inconsequente est embutido o germe da contribuio pessoal desinteressada, um tipo de atitude a ser cultivada em uma sociedade. "A formao de uma tropa de voluntrios  um dos mais excepcionais legados das grandes competies para um pas", diz o australiano Craig McClatchey, um dos maiores especialistas em gesto de eventos esportivos.
     VEJA ouviu uma leva dos j aprovados, em sua maioria gente que nos ltimos anos se acostumou a pular de evento em evento mundo afora, fazendo de graa todo tipo de servio (inclui-se a faxinar vestirios e lavar pratos) em troca de conhecer novas culturas, aprender idiomas, engatar amizades e formar uma rede de contatos global. Embora a Fifa (que j iniciou a peneira para a Copa de 2014) e o Comit Olmpico (que comear o recrutamento para os jogos de 2016 no ano que vem) insistam na tecla de que favorecem a diversidade e todos tm chance,  sabido que esses j iniciados largam com boa vantagem. O processo de seleo  que, como nos grandes concursos, se baseia em testes de conhecimento e dinmicas de grupo  j funciona como treinamento, familiarizando os candidatos com a enciclopdia das Copas e com o bsico sobre o funcionamento de um estdio. Logo eles so introduzidos a um mandamento sagrado na bblia do voluntariado esportivo: se a sorte se anunciar e voc estiver lado a lado com seu dolo, DISCRIO (com letras maisculas mesmo)  a palavra-chave.
     Integrante do rol dos veteranos, o professor carioca Anderson Lopes, 34 anos, j recebeu no apenas um, mas dois daqueles chamados pelos quais tanta gente aguarda: ele foi aprovado nas selees da Copa das Conferederaes e da Jornada Mundial da Juventude. '' uma chance nica de mostrar o Brasil aos outros e ao mesmo tempo estar nos bastidores", diz o entusiasmado professor, que, dono de ingls fluente, virou uma espcie de faz-tudo de atletas estrangeiros durante os Jogos Pan-Americanos de 2007. A ideia de se inscrever no encontro de jovens catlicos no Rio ele teve quando foi  edio de Colnia, na Alemanha, em 2005, e esbarrou com voluntrios aos milhares. No Rio, Anderson se juntar a outros 65.000, turma que se move na esperana de ver o novo papa de perto  uns poucos sero at recrutados para ficar no entorno da comitiva do pontfice  e estar em meio a uma tribo internacional que se aproxima na idade e no modo de pensar. Mais de 10.000 desses voluntrios so estrangeiros  caso do economista espanhol Jos Marqus, 22 anos, escolado em Jornadas. Ele j est a toda no Rio, envolvido na rea de finanas. "Estou literalmente no paraso", brinca em bom portugus. O que espera do encontro? "Ser um momento para desfrutar essa boa energia carioca."
     O contato entre os voluntrios extrapola, e muito, o tema e o lugar dos eventos dos quais tomam parte. Eles no s se juntam em redes sociais na internet como se vem em toda parte. "Tenho amigos e casas no mundo inteiro", diz a publicitria mineira Paula Modenesi, 22 anos. Aos 19, ela trabalhou na Copa da frica do Sul, onde se hospedou numa casa com outros dezessete colegas de voluntariado de diferentes pases. Seu grande momento: serviu de intrprete na coletiva da seleo brasileira depois do fatdico jogo que a eliminou, nas quartas de final. "Fiquei impressionada com o estado do goleiro Jlio Csar. Parecia que ele se culpava pela derrota", lembra. Preparando-se para atuar na Copa das Confederaes, Paula j marcou frias para junho e ajeita a casa  onde exibe, ciosa, sua coleo de pins e credenciais  para receber amigos estrangeiros que se voluntariaram para as Copas no Brasil. Os que vm de fora so a minoria: menos de 5% do total de candidatos nos eventos esportivos.
     Todos esses jovens no apenas no recebem como pagam  bilhete areo, hospedagem, alimentao  para ter direito ao to almejado crach. Mas acumulam experincia que pode dar um verniz decisivo ao currculo. Em pases com tradio de voluntariado, como os Estados Unidos, at a admisso em universidades de alto prestgio pode ser facilitada  ateno: tanto para americanos quanto para estrangeiros  por uma boa vivncia de doao do tempo. "Um trabalho voluntrio enriquecedor  um item valorizado no processo de seleo de novos alunos", diz Jason Dyett, diretor do escritrio da Universidade Harvard em So Paulo.
     No  raro tambm que voluntrios com mais iniciativa sejam absorvidos pela engrenagem oficial e saiam com emprego remunerado. A catarinense Diana Maes, 28 anos, concluiu uma ps-graduao em marketing esportivo, economizou 4000 reais e se tornou voluntria do setor de marketing da Fifa em Johannesburgo  tudo de caso pensado. "Vi aquilo como um investimento", conta. Assim que voltou ao Brasil, conseguiu uma vaga na rea de projetos esportivos de um patrocinador. Em novembro, mudou de emprego: atualmente cuida do treinamento dos gerentes dos escritrios do Comit Organizador Local da Fifa localizados nas cidades-sede da Copa do Mundo.
     Do lado dos empregadores, o benefcio financeiro  bem concreto e essencial. Calcula-se que na Copa do Mundo, em que o oramento total beira os 900 milhes de reais, a Fifa far com seus 15.000 voluntrios uma economia de 50 milhes de reais. "Sem o voluntariado, um evento desse porte seria impagvel", afirma o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, lembrando a origem da atividade no Brasil: os 38.000 homens que se alistaram, por vontade prpria, para combater na Guerra do Paraguai (1864-1870), imortalizados em placas de rua como os Voluntrios da Ptria. O australiano Craig McClatchey ainda refora que no se est falando de mo de obra qualquer. "Em geral, so jovens entusiasmados e orgulhosos do que esto fazendo, da a alta produtividade",   observa. A relevncia da atitude dos voluntrios ficou evidente na Olimpada de Londres, no ano passado, que virou modelo a ser seguido por causa do cronograma impecvel, da organizao eficiente  e da atuao de seus 70.000 funcionrios no pagos, elogiadssimos pela simpatia, pela vontade de ajudar e pelas respostas acertadas.
     Nos megaeventos esportivos, os voluntrios vo atuar em postos mdicos, centros de imprensa e bilheterias, administrar a agenda e as idas e vindas das selees. A eles se juntaro os aprovados no Brasil Solidrio, programa federal que cuida da seleo da legio mais visvel: a dos que prestam informao diretamente ao pblico em aeroportos, estdios e pontos tursticos (50.000 dessas vagas comearo a ser preenchidas a partir de junho). A descrio dos postos de trabalho joga uma piscina de gua fria nos esperanosos candidatos: o trabalho, em geral, no tem glamour. Se assistir a um jogo ao vivo  difcil, chegar perto dos dolos  mais ainda. H incumbncias mortalmente entediantes. "No Pan de 2007, me puseram para cuidar da tecnologia na arena de basquete. A gente checava se tinha papel nas impressoras e depois ficava l, parado, esperando algum precisar de ajuda. Ningum precisou", relata Tas dos Santos, 24 anos, estudante de qumica em Valinhos, no interior de So Paulo. Ela desanimou? Que nada  j est em contagem regressiva para a Copa das Confederaes. Alguns acabam aprendendo a pegar no pesado. "Depois que comecei minha carreira de voluntrio, passei a achar natural fazer a faxina da casa", diz o publicitrio Jadson Almeida, 33 anos, de So Paulo, que financia as viagens com a venda on-line de artesanato africano  negcio que foi adiante justamente com a ajuda das amizades seladas na Copa de 2010.
     As mazelas do ofcio no so um fardo para as centenas de milhares de pessoas motivadas e cheias de expectativas que esto contando os dias para comear a festa de 2013, a de 2014 e a de 2016. Parafraseando adeptos de exageros, s que com base na crua realidade dos nmeros:  voluntrio como nunca se viu na histria deste pas. Nesse grupo, pouca gente tem to srias intenes quanto a paranaense Nicolle Oliveira, 19 anos, que estuda gesto ambiental e, toda engajada, est em busca de experincia na rea. Nicolle foi voluntria na Rio+20, a grande conferncia sobre meio ambiente, tem trabalho j engatilhado na gesto de resduos de comunidades indgenas na Colmbia e quer atuar na Copa das Confederaes para ajudar na "conscientizao ambiental do pblico"  termo que em "voluntaris" significa reciclar. A maior parte tem objetivos menos meritrios e mais alinhados com as prioridades do paulista  Rodrigo Colucci, 28 anos, fantico por futebol. Elas so: 1) assistir a um jogo, "qualquer jogo"; e 2) aumentar sua coleo de 700 camisetas de times e eventos esportivos. "As prximas vo ser as das duas Copas aqui", sonha. Independentemente da seriedade das intenes de cada um,  certo que uma multido de brasileiros ter a chance de tomar conscincia de que trabalho voluntrio  tambm doar um pouco de si pelo bem comum  um conceito que, se pegar, vai fazer muito bem ao Brasil. 

MANUAL DO CANDIDATO
Um grupo de veteranos ouvido por VEJA d dicas que podem aumentar as chances dos novatos na briga por uma vaga de voluntrio nas prximas selees para a Copa do Mundo de 2014 e para a Olimpada de 2016.
1- Ao se inscrever, d preferncia a cidades menos procuradas, como Braslia e Manaus. A concorrncia dispara no circuito So Paulo-Rio de Janeiro.
2- Antes de se candidatar a vagas longe de casa, arranje acomodao e enfatize isso. Ter onde ficar conta ponto na seleo.
3- Mostre que encara o trabalho voluntrio com muita responsabilidade. Comece cumprindo prazos e sendo pontual no dia da entrevista.
4- Nos formulrios e na entrevista, no minta nem enfeite a verdade. 
5- Programe-se para ter o dia inteiro livre durante toda a durao do evento e, na etapa de seleo, deixe bem clara essa disponibilidade. O turismo fica para depois.
6- Saber trabalhar em grupo  fundamental. Nas respostas, use sempre "ns" em vez de "eu".

EM JARGO ENGAJADO - Estudante de gesto ambiental, a paranaense Nicolle Oliveira, 19 anos, enxerga alm dos gramados. Ela quer trabalhar na Copa das Confederaes para ajudar na "conscientizao ambiental do pblico". Traduzindo: martelar a ideia da reciclagem. "Vai ajudar na minha formao", aposta Nicolle, que j foi voluntria na Rio+20.

ELE AT VIU A COR DO GRAMADO - O publicitrio Jadson Almeida, 33 anos, de So Paulo, teve um momento de grande emoo como voluntrio da Eurocopa de 2012, na Polnia. Ele conseguiu ficar cara a cara com seus dolos da seleo espanhola e at recebeu sorrisos e acenos do time. "O crach de voluntrio lhe d acesso a bastidores que os outros no tm", diz o veterano, que vai repetir a dose no Brasil.

CASA NO MUNDO TODO  A publicitria mineira Paula Modenesi, 22 anos,  integrante de uma tribo de voluntrios que vive conectada. "Tenho onde ficar em qualquer canto do globo", diz. Ela retribuir a hospitalidade recebendo em sua casa uma turma de estrangeiros que vem ao Brasil doar seus prstimos na Copa das Confederaes.

ELA SAIU EMPREGADA - Com uma ps-graduao em marketing esportivo, a catarinense Diana Maes, 28 anos, raspou as economias para estrear como voluntria na Copa da frica do Sul. Tinha um objetivo: atuar no setor de marketing da Fifa. Acabou arranjando emprego remunerado. "Hoje comando o treinamento dos gerentes dos escritrios da Fifa localizados nas cidades-sede da Copa", diz.

DOSE DUPLA - O professor carioca Anderson Lopes, 34 anos, ser voluntrio na Copa das Confederaes e na Jornada Mundial da Juventude. Veterano, no Pan de 2007 ele era uma espcie de faz-tudo e ciceroneava atletas estrangeiros no Rio. "Levei uns cubanos para o mercado e eles se espantaram com a quantidade de marcas de sabonete", lembra Anderson, que adora esse "choque de culturas.

SAMBAR E REZAR - O alemo Konrad Kremer, o francs Jules Gupratte, a polonesa Aleksandra Szymczak e o espanhol Jos Marqus: j no Rio, o grupo de voluntrios da Jornada da Juventude aprovou a energia carioca.

COM REPORTAGEM DE GABRIELE JIMENEZ E VANESSA CABRAL


9. FAMLIA  MEU AMADO EX-ENTEADO
A famlia moderna no precisa ter laos de sangue para que todos convivam em harmonia, com afeto e civilidade. Mas ningum disse que no existem complicaes.
MARIANA AMARO

     Uma dvida dos tempos atuais ronda a cabea da universitria Virgnia di PierrO: como vai fazer, no dia do casamento, para entrar na igreja com o pai e o ex-padrasto? Um de cada lado? Metade do corredor com um e metade com o outro? "S sei que sem o Mauro eu no entro", diz Virgnia, que tem 23 anos e h onze no divide mais o teto familiar com o psiquiatra Mauro Aranha. Os fortes laos, porm, permanecem de lado a lado. Comearam a ser forjados na primeira infncia da estudante, quando sua me, Renata, se uniu a Mauro em segundo casamento. Ela e o irmo, Mrio Francisco, envolveram-se com espontaneidade infantil no que viria a ser uma famlia moderna, cheia de relacionamentos inesperados  e complicados. "Eles iam dormir com a gente e faziam xixi na cama. Nunca vi problema nisso. Eu gostava", relembra Mauro. "At hoje, durmo na casa dele. Meu pai, que  presente, me incentiva a passar o Dia dos Pais com o Mauro. Eu almoo com um e janto com o outro", conta Virgnia. Ela chama Mauro de papai. E o pai, de pai. Mauro e Renata tiveram uma filha em comum, Natalia, e depois se separaram. O psiquiatra casou-se de novo e tem dois outros filhos. A penso que paga a Natalia, de 21 anos,  dividida tambm com Virgnia e Mrio Francisco.
     Ligaes afetivas que se formam entre crianas e adultos que cuidam delas, mesmo sem laos de sangue, s existiam no modelo familiar tradicional quando uma das partes do casal enviuvava e se casava de novo. Hoje, esto em praticamente todas as famlias, criando questes sem respostas fceis. Como  possvel que uma pessoa que tenha convivido com uma criana, ido s reunies de escola, dado bronca e dividido momentos afetuosos possa simplesmente se desligar dela quando o casamento acaba? H quem ligue o boto do "dane-se", h quem cultive belas relaes vida afora.
     "Eu passava a noite acordada ao lado da cama da Juliana quando ela tinha febre", conta a dona de casa carioca Maria da Graa Correia, que foi casada com o pai da jovem durante treze anos. Depois da separao, a conexo entre as duas continuou forte. "Com 16 anos, Juliana engravidou, e foi para mim que ela contou. Eu  que a levava ao mdico. Hoje, o filhinho dela me chama de vov Graa." O desligamento abrupto dos filhos de ex-cnjuges pode provoca um tipo de sofrimento difcil de ser absorvido  ou entendido. A arquiteta paulista que pede para ser identificada apenas como Claudia ainda chora de saudade do menino com quem convivia todo fim de semana, quando era casada com o pai dele. "Dizem que ele no  mais problema meu", registra Claudia. Ela acha que a criana tambm sentiu a separao: proibido pela famlia de v-la, o menino repetiu o ano e precisou mudar de escola. "Quem tinha um lao forte com o padrasto ou a madrasta vai sofrer como sofreria na separao dos pais. Caem a produtividade escolar e a autoconfiana", diz a terapeuta de famlia Janice Rechulski.
     Uma complicao adicional, ainda longe de ser definida legalmente, so as obrigaes legais. No existe uma legislao especfica que trate desses parentescos no consanguneos, mas o Cdigo Civil tem uma disposio para evitar deturpaes como o casamento entre um ex-padrasto e sua ex-enteada. A valorizao desse vnculo comea a ser usada para fundamentar decises que favoream o pagamento de penso alimentcia a menores sem lao biolgico. Em um processo indito, a juza Adriana Bertoncini, de Santa Catarina, determinou que um engenheiro pagasse 20% do salrio  filha da mulher com quem ele foi casado durante dez anos. "Ele no era s o marido da me. Ele pagava a escola dela e a viagem  Disney, participava das homenagens de Dia dos Pais", descreve a advogada Daniele Rodrigues. Detalhe importante: o pai biolgico da menina tambm paga penso.
     Manter o vnculo afetivo e o compromisso financeiro com ex-enteados pode ser uma deciso tomada espontaneamente por adultos maduros e emocionalmente equilibrados. Anos atrs, o analista de segurana da informao Leandro Costa foi casado com Ana Gomes, que j tinha o filho Raphael. Juntos, eles tiveram outro filho, Guilherme. Quando veio a separao, Leandro foi morar em um prdio na rua de Ana. Assim, os meninos dormem todos os dias juntos, na casa dele ou na dela. "Dividimos igualmente as despesas dos dois meninos. Nem sei o que  gasto de um ou de outro", diz Leandro, que est tentando adotar o garoto, hoje com 14 anos.
     H casos excepcionais, como o que aconteceu em Joo Pessoa, na Paraba, onde uma ex-madrasta conseguiu a guarda do ex-enteado. Ela entrou com o pedido na Justia quando se separou do marido e, ouvido pelo juiz, o menino pediu para ficar com a madrasta. " complicado sobrepor a condio socioafetiva  biolgica. Fica a sensao de que o pai foi injustiado. Mas, como o juiz sempre leva em conta o que  melhor para a criana, o que pesa mais  o pedido dela", analisa o advogado de famlia Franscisco Cahali. A Justia entra em ao quando as emoes humanas impedem que o bom-senso se imponha  e nem sempre tem a soluo. Um caso clssico  o da atriz americana Halle Berry. Ela tem uma pssima relao com o pai da filha, o modelo Gabriel Aubry.
     Para complicar, seu companheiro atual, o ator Olivier Martinez. gostaria de voltar para seu pas, a Frana, com Halle e a enteada, Nahla. A pedido de Aubry, a Justia o impede. Os dois se estranharam a respeito, Aubry puxou briga e Martinez cobriu-o de pancadas. Um barraco envolvendo gente bonita e famosa. Mas to indesejvel e emocionalmente nocivo quanto qualquer outro. 
COM MARLIA LEONI


